Pular para o conteúdo principal

Coluna literária 3º Artigo Sandra Lemmos





Um gênero impactante: O Conto
A prosa em sua mais ampla gama abriu, na proximidade, na intersecção com a oralidade, um espaço para o surgimento de uma forma, que na modernidade ganha sua excelência com  O Capote, de Gogol e outras obras preciosas que surgem das mãos de  Anton Chekhov, James Joyce, Virginia Woolf, Gabriel García Márquez e  Machado de Assis. O que Gogol fez com maestria foi dar voz, jogar luz sobre o individuo ridicularizado, sobre aquele que é sobrepujado pela sociedade. A marca específica do conto como gênero é a de ser um gênero de discurso complexo, um enigma, de conter sempre uma história cifrada; uma história dentro da outra. Há uma narrativa principal e uma segunda cifrada dentro desta. É um gênero complexo, já que perdeu seu vínculo imediato com a realidade, conecta-se com esta apenas através da refração dos eventos concretos do acontecimento artístico – literário. O que o distingue dos outros gêneros em prosa é a sua capacidade de sintetizar a narrativa. Enquanto o romance pode abarcar a totalidade de uma vida em sua narrativa, o conto encapsula um único evento e o descreve tendo em sua mirada a epifania. Embora o conto só tenha sido reconhecido como gênero literário na modernidade, assim como as outras formas em prosa, segundo a teoria literária, a narrativa ficcional curta é tão antiga quanto a própria história da literatura. Suas origens podem ser encontradas nos mitos, nos versos bíblicos, nos sermões medievais, nas fábulas contadas por nossos ancestrais ao redor do fogo. O conto, por seu aspecto condensado, apresenta uma característica que não se repete nos outros gêneros, que é a de dar a um indivíduo, ao indivíduo que vive na margem da sociedade, ao indivíduo solitário, que não tem senso de pertencimento, visibilidade.  Segundo O’Connor, a personagem do conto retrata a população submersa, a população invisível para a sociedade. Para o autor, mesmo nos contos fantásticos, a voz que emerge é a de alguém que, no evento narrado, se desloca das margens e se insurge. O conto é  um enigma. A arte de narrar o conto implica a duplicação, a fabulação do inesperado, da surpresa, da epifania, da visão, a expectativa de uma revelação. Grande mestre do conto, Machado de Assis nos presenteia com obras como o conto O espelho, em que num retrato metaficcional, num jogo de duplicação e espelhamento, discorre sobre a transcendência da alma humana. Esse conto narra a luta encarnada por um pobre alferes que se perde entre as ilusões da alma externa e a essência de sua alma interna. Imiscuída, submersa na primeira narrativa, na narrativa  da luta da alma do alferes, está o enigma da luta da alma do próprio narrador, do autor e da humanidade. A forma prosaica do conto propicia uma leitura surpreendente e impactante. Aos que apreciam uma leitura enigmática,  o conto oferece um espaço ficcional perfeito. Uma forma breve que captura o pensamento.
                                                                                                                   Sandra Lemmos

Postagens mais visitadas deste blog

Revista LCB literária e cultural

Eduardo Maciel Artes Revista LCB literária e Cultural

Coluna literária 2º Artigo

             O amor e suas formas na Literatura                   “Senhores, agrada-vos ouvir uma bela história de amor?”  Nada agrada mais do que uma história de amor, assim como nada nos intriga mais do que a morte. Foi explorando essa temática que o gênero romanesco  surge, se mantém durante séculos e atinge seu ápice no século XX. Todos os gêneros literários se dedicaram ao amor, ele está em toda narrativa humana, pois esse repercute o melhor e o pior do ser humano, no entanto, o romance fez do universo do amor sua principal artéria, a ponto de se confundir, em algumas línguas latinas, o tema com o gênero. O amor, no ocidente, foi idealizado a tal ponto que passou a ser uma aspiração para a vida, é um artifício de retórica  tão profundo e sagaz que se perpetua, em todas as suas formas, nos fascina; ele está em nossas canções, em nossas poesias, está no discurso humano. De acordo com Rougemont, “o entusiasmo que mostramos pelo romance, pelo erotismo idealizado, está difu